Língua e Literatura

Soneto Camoniano – Luís Vaz de Camões

Amor é fogo que arde sem se ver;

é ferida que dói e não se sente;

é um contentamento descontente;

é dor que desatina sem doer.

 

É um não querer mais que bem querer;

é um andar solitário entre a gente;

é nunca contentar-se de contente;

é um cuidar que ganha em se perder.

 

É querer estar preso por vontade;

é servir a quem vence, o vencedor;

é ter com quem nos mata, lealdade.

 

Mas como causar pode seu favor

nos corações humanos amizade,

se tão contrário a si é o mesmo Amor?

(Luís Vaz de Camões)

 

Na primeira estrofe, a ambivalência do amor está demonstrada na ardência do corpo e na transcendência da alma. A utilização de metáforas denuncia a contradição entre o amor físico: “fogo que arde”, “ferida que dói”, e o amor espiritual: “sem se ver” e “não se sente”. Nas três primeiras estrofes, o poeta esforça-se para conceituar a natureza do amor, que, para ele, é contraditório. Na última estrofe, ele chega a conclusão sobre os efeitos desse sentimento: como pode um sentimento tão contraditório levar conforto aos corações humanos?

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