Língua e Literatura

Os heterônimos de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa é um caso único de desdobramento de si mesmo em outras personalidades poéticas. Os heterônimos de Pessoa não são máscaras literárias, não se confundem com pseudônimos. Ele não inventou personagens-poetas, mas criou obras de poetas, e, em função delas, as biografias de Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro.

Passagem das horas
(Álvaro de Campos)
Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar erguido a um deus diferente.
[…]
Esse fragmento do poema de Álvaro de Campos ressalta uma das principais contradições do homem moderno: de um lado, a superexcitação dos sentidos; de outro, a insatisfação, a sensação de que a vida é pouco, perante tantas possibilidades, mais sonhadas que reais.

Odes de Ricardo Reis
Fragmento 1
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Fragmento 2
Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade
De rosas
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.
No fragmento 1, em que os versos decassílabos se alternam com redondilhas, o sujeito lírico tematiza a nossa necessidade de equilíbrio e de “inteiridade”, em oposição à fragmentação e ao exagero. No fragmento 2, com versos alternadamente de seis e duas sílabas métricas, sobressaem os sentidos da vida como passagem, como transitoriedade.

O guardador de rebanhos
(Alberto Caeiro)
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
O poema identifica o ato de pensar com a relação sensorial do corpo com o mundo, destacando a felicidade proporcionada pelos sentidos, em comunhão direta com a natureza.

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